Olá,
Irei me apresentar, sou a MACONHA e contarei minha trajetória:
Sou uma terapia antiga, conforme Malcher e Sidarta, eles afirmam que o homem primitivo experimentava todas as partes das plantas que pudesse mastigar, de forma que os brotos e as inflorescências, ricas em resinas aromáticas e pequenos frutos oleosos deveriam lhe parecer especialmente atraentes. Inclusive a ingestão dos princípios psicotrópicos, abundantes na resina, transformavam a refeição numa experiência inesquecível.
Os efeitos mentais da maconha teriam representado um mergulho profundo em uma realidade completamente fora desta, produzindo intensas sensações místicas. Assim, em algum momento longínquo do passado, mais do que uma fonte de fibras, alimentos e óleo, variedades da Cannabis ricas em resina (maconha) provavelmente, passaram a ser usadas para atingir a comunhão com o mundo sobrenatural.
Em 2006, foi encontrada na divisa entre China, Mongólia e Rússia a tumba de um xamã. Com ele enterraram uma cesta de couro contendo um farto suprimento de brotos e inflorescências de maconha que, devido ao frio, ainda preservavam um alto teor de canabinóides. Para os xamãs propriedades psicotrópicas e medicinais dos mais diversos princípios da natureza, inclusive a maconha, eram sagradas e constituíam valiosas ferramentas farmacológicas, necessárias ao oficio diário de diminuir as dores do corpo e dialogar com as diferentes dimensões da consciência.
Mesmo desprovidos de metodologia cientifica, esses curandeiros foram pioneiros na descoberta de fármacos e no teste de suas aplicações, fornecendo fundamentais contribuições à medicina tradicional chinesa.
De fato, a mais antiga farmacopéia do mundo, o Pen-ts’ao ching, escrita no primeiro século após Cristo, contém detalhada lista dos princípios medicinais oriundos dos reinos mineral, animal e vegetal. Muitos destes fármacos tiveram suas propriedades psicofarmacológicas e medicinais confirmadas pelos testes da ciência moderna. Entre estes, está a maconha, indicada para o tratamento de dor reumática, constipação, problemas femininos associados à menstruação, beribéri, gota, malária e falta de concentração.
O ápice foi-o quando Hua T ́o (110-207 a.C.), o fundador da cirurgia chinesa, passou a utilizá-la como anestésico misturando-a ao vinho.
No Oriente, os efeitos da Cannbis foram mais explorados. A antiga medicina persa, estabeleceu os efeitos bifásicos da maconha, mencionando que, quando doses altas são usadas, os efeitos estimulantes iniciais, tais como euforia, estímulo da imaginação, aumento do apetite e da libido, podem ser gradualmente substituídos por melancolia, perca de peso, perda de apetite sexual. Na região da antiga Mesopotâmia, antes da era cristã, a maconha já era empregada por suas propriedades farmacológicas. Documentos arqueológicos indicam a utilização da maconha para desfazer feitiços, tratar inchaços, ferimentos, depressão, impotência, artrite, cálculo renal e enxaqueca menstrual.
A alusão mais antiga às propriedades psicotrópicas do bhang aparece no Atharva Veda (Ciência dos Encantamentos), escrito entre 2000 e 1400 a.C. O livro reconhece a propriedade que a maconha tem de aliviar a ansiedade. E a reconhece como uma das cinco ervas sagradas do Hinduísmo, fonte de alegria, regozijo e liberdade, conforme Malcher e Ribeiro.
Sushruta, médico do século VI a.C., escreveu sobre a medicina indiana antiga, o Sushruta Samhita, no qual menciona que a maconha estimula o apetite, a digestão e a libido, além de ser diurético e inibir a produção de muco nas vias respiratórias. Na medicina indiana, a noção de desobstrução e facilitação do movimento dos fluidos estendia-se também ao funcionamento da mente, onde tais propriedades serviriam para facilitar o fluxo das idéias, aumentando a imaginação.
Para Malcher e Ribeiro, o Tibete é uma das poucas regiões onde ainda se encontram grandes quantidades de maconha em seu estado silvestre, seu cultivo faz parte da tradição e é utilizada como remédio no tratamento de ulcerações, feridas de difícil cicatrização, estimulante sexual, contra o reumatismo, inflamações de ouvido, agente anticonvulsivo e antiespasmódico, em casos de epilepsia e tétano, inclusive no tratamento do gado.
Com a ocupação britânica da Índia, no século XIX, que a Europa veio a tomar contato com as propriedades medicinais da maconha.
O médico irlandês William Brook aprendeu sobre a maconha com os médicos indianos, e impressionou-se com o uso no tratamento de reumatismo e das convulsões causadas por tétano e raiva.
O psiquiatra francês Jacques, em viagem à Índia, vislumbrou a possibilidade de aplicação da maconha no tratamento de distúrbios mentais.
Quando divulgaram seus estudos, o impacto foi grande na medicina européia, no tratamento dos sintomas de doenças infecciosas como raiva, tétano e cólera.
O uso da maconha na medicina ocidental espalhou pela Europa e Estados Unidos nas primeiras décadas do século XX, surgindo remédios à base de maconha produzida por laboratórios farmacêuticos, sendo recomendados pelos médicos para os mais variados problemas, incluindo: enxaqueca, dor de dente, cólicas menstruais, hemorragia menstrual, pós-parto, risco de aborto, úlcera gástrica, indigestão, inflamação crônica, reumatismo, eczema, estímulo do apetite, tratamento de anorexia, doenças exaustivas, disenteria, insônia, depressão, ansiedade, delirium tremens (crise de abstinência de álcool), epilepsia, convulsões e espasmos causados por tétano e raiva, febre alta, tremor senil, tumores cerebrais, tiques nervosos, neuralgia, vertigem, tosse, formigamento e dormência causados por gota, bócio, palpitação cardíaca, frigidez feminina e impotência sexual.
Em paralelo, a indústria farmacêutica desenvolvia vacinas e antibióticos contra doenças infecciosas, além de novos remédios com indicações mais específicas, que passaram a ser de maior interesse do que aqueles com efeitos múltiplos, conforme a maconha. Nos Estados Unidos, o declínio do uso médico da maconha se deu sobretudo a partir de 1939, quando as autoridades norte-americanas impuseram taxas de valores proibitivos para médicos que prescrevessem remédios contendo maconha.
Conforme Malcher e Ribeiro, em 1941, a maconha saía das páginas da farmacopéia norte-americana para figurar nas páginas policiais, sob grande influência da indústria farmacêutica para viabilizar seus novos produtos.
O interesse médico, científico e farmacêutico pela maconha e seus derivados retorna de forma pungente a partir dos anos 1990, com a descoberta do sistema endocanabinóide.

Nenhum comentário:
Postar um comentário